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sábado, 9 de agosto de 2008

sexos VII

Sentei-me num banco de jardim em Riga
e não via nada a não ser o empregado da padaria
a fumar cá fora, à minha frente. Já me tinha apaixonado
quatro vezes. Mas nunca
assim.

Falei com ele.
Não percebia inglês, português muito menos. Percebeu
a minha mão na sua cara. Encontrou-se comigo
nessa noite, num bar. Não chegámos a ir
à casa dele ou ao meu
quarto de hotel. A ruela do bar serviu. Mas ainda
estou apaixonado por ele,

três anos mais tarde.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

sexos VI

Ia no metro, colado a mim. Eu ia pagar a conta
da água, ele ia para o Estádio. No entanto
apalpei-lhe o rabo. Deu-me a mão
e não fui pagar nesse dia.

Seguimos para casa dele, uma casa pequena e fria e húmida
e mal decorada, mas que tinha um sofá. Ele impôs
a televisão, enquanto a sua boca
envolvia a minha
volúpia. E o comentador
dizia "golo", enquanto eu
marcava.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

sexos V

Esta noite estou sozinho. Comecei por
fazer um charro. E fumei-o sozinho porque não tenho ninguém
que o fume comigo.
Dizem-me que eu sou como o Henry
Miller. Por mais que foda, não consigo ter
ninguém. Neste país ninguém tem ninguém
por isso não quero saber.

Depois de ter fumado o meu charro, fui para a varanda
ver o mar. Já não se via nada, claro. Um ar crivado de
gritos chegava desde a esplanada da praia,
onde me apeteceu ir.

Fui.
Sentei-me sozinho, sem dar por nada. Tomei um gin tónico com limão
e depois uma cerveja e depois um Licor Beirão. Depois
apeteceu-me masturbar. Fui para o areal e masturbei-me. Quando
estava quase a acabar, reparei que ao meu lado,
estavam duas pessoas
a procriar, como deus manda e o governo também.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

sexos IV

A luz solar entrou-me
pelos olhos como
uma flecha. Abri-os e lá estava ela, deitada ao meu lado,
muito adormecida.

Levantei-me e
fiquei a olhá-la, sentei-me nu no parapeito da janela, de costas para Riga, a fumar
um cigarro de mentol que
lhe tirei do maço, só para chatear. Quando acordou, ficou a olhar-me.
Provavelmente achou-me
feio, ainda que não tivesse achado
o mesmo na noite
anterior. Levantou-se e barafustou por causa do cigarro
que lhe tirara. Madei-a foder em português,
e ela não percebeu.

Olhou-me irritada, a perguntar o que
dissera. Disse, em inglês, que
lhe tinha dito bom dia.

domingo, 3 de agosto de 2008

sexos III

Eras o homem mais atraente dentro do bar.
A luz parecia ir morrer
ao teu casaco de couro, para te iluminar
a cara.

Riste-te quando
me aproximei
de ti. No entanto, não riste
quando te encostei à parede da casa-de-banho
e te beixei as calças para te enrabar.

Tinha tanta inveja de ti
por seres tão
bonito e por te
rires,
que quase te matava enquanto te amava.

E não sabia nada.
Soube mais tarde.
Pediste-me o meu número, e eu
ri-me. Disse um palavrão
e fui-me embora,
entrei pela noite e
nunca mais saí.

sábado, 2 de agosto de 2008

sexos II

Há muito tempo que não te achava tão bonita
como na noite em que quase morreste.

Eu via-te deitada na maca
a entrar
para as urgências, e nem estava a perceber bem
o que se passava.

Sei que, no momento em que
a tua cabeça quase desaparecia
no limiar da porta, pensei que eras muito bonita.
E foi como se uma garça tivesse pousado
nos meus dedos. E eu não a quisesse deixar voar.

Acordaram-me na manhã seguinte para me dizer que ias ficar
bem. E eu tinha adormecido
na sala de espera, encostado à fonte de água,
e tinha sonhado contigo, a correr para fora do hospital,
com uma garça pousada no ombro.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

sexos I

Era uma noite poeirenta, afogada no sabor
da terra e no cheiro a charro. A tua mão pousou
com força no meu rabo, enquanto olhavas para mim.

As pessoas não viam, estavam distraídas.

Dentro da tenda, acendeste-me um charro
e fodi-te toda a noite. Nunca mais te vi,
e hoje lembrei-me de ti, e da tua mão, e do teu charro, e gostava
de te telefonar. Mas não me deste o número.

Reencontrar-te-ei daqui a muitos
anos, talvez, e nem saberei que és tu.
De novo a tua mão pousará
no meu rabo, de novo me acenderás
um charro, e de novo te foderei.

Toda a noite.